domingo, 18 de outubro de 2009

Cada bairro tem uma história - La Boca


A região que ocupa hoje o bairro de La Boca é onde Pedro de Mendoza fundou pela primeira vez a cidade de Buenos Aires em 1536. Na época da colônia espanhola, era uma localidade aonde chegavam e habitavam os escravos negros em grandes barracões. Depois, com a independência, ali, salgavam-se as carnes que a Argentina exportava junto a oficinas onde se curtia o couro.    

La Boca foi o principal porto de Buenos Aires, e no final do século XIX ainda era o local aonde chegavam a maioria dos navios. Desta forma, o bairro começou a ser  habitado por imigrantes italianos, principalmente genoveses, que deram o estilo que hoje é mundialmente conhecido. Estes imigrantes moravam em casarões chamados conventillos, que eram construções com chapas de zinco e cômodos muito pequenos onde viviam famílias inteiras com uma cozinha e um banheiro compartilhados entre todos os moradores do prédio. Havia também um pátio central e varandas internas. As fachadas dessas casas eram pintadas com as sobras das tintas dos barcos que ancoravam ali. A maioria das vezes, a tinta resgatada não era suficiente para pintá-la inteira, por isso, utilizavam várias e de diversas cores o que deu a peculiar imagem ao bairro.              
A medida que avançou o tempo e os barcos foram ficando maiores, o porto já não comportava a demanda. A pouca profundidade das águas não deixava entrar barcos de grande calado e, por iniciativa de Eduardo Madero, o porto da cidade foi deslocado aonde se encontra na atualidade. O bairro sofreu essa mudança, e se tornou um local onde as indústrias começaram a se estabelecer. Converteu-se, no segundo bairro mais povoado da cidade em 1895 onde quase 50% dos moradores eram imigrantes.         
Foi o bairro do proletariado, várias revoltas –inclusive uma tentativa de criar a República de La Boca pelos imigrantes genoveses- aconteceram ao longo da sua história. De fato, o primeiro deputado socialista da América foi eleito pelos votos da população do bairro. Foi Alfredo Palacios em 1905.                  
Além de essa característica, La Boca foi também berço de grandes artistas como Benito Quinquela Martín, um pintor que refletia os trabalhos portuários e o cotidiano do bairro e da população em estilo neo-impressionista.          
A vizinhança do Riachuelo é um dos locais mais visitados pelos turistas porque está muito ligada à mitologia do tango. Varios pontos são muito procurados pelos visitantes. Caminito, uma rua imortalizada por um tango, onde se vendem pinturas, todo tipo de lembranças e artesanato, é um deles. A Vuelta de Rocha, local onde o Riachuelo faz uma curva bem ampla, La Bombonera –o estádio do clube de futebol Boca Juniors- e um bar onde costuma haver shows de rock e blues chamado El samovar de Rasputín, uma velha cantina italiana reformada para albergar esses shows.
Por sinal, há abundância dessas cantinas típicas onde além de experimentar todo tipo de pratos tipicamente italianos, ainda poderá desfrutar da música típica com violino e sanfona em um ambiente muito descontraído. Quem for a La Boca, também pode visitar o Museo de Cera, único da Argentina onde se exibem cenas típicas da história do bairro. Outro local que recreia o bairro é o Mural escenográfico que tem imagens de Diego Maradona, Aníbal Troilo que foi um dos maiores músicos do tango, e Quinquela Martín. Casa Amarilla é uma reprodução da casa do Almirante Guillermo Brown -marinheiro irlandês pioneiro da força naval argentina que participou na defesa do território contra a armada inglesa- onde funciona o Departamento de Estúdios Históricos Navais.
E também, o Museo Quinquela Martín. Em 1933, Benito Quinquela Martín doou um terreno para construir um edifício que albergaria uma escola, um museu de arte argentino e sua própria moradia e ateliê. Ele mesmo decorou as salas com murais. A coleção do museu, que funciona no terceiro andar, foi iniciada por Quinquela Martín e inclui a maior parte da sua obra e a de outros artistas argentinos.